segunda-feira, 30 de março de 2009




Poema do actor


O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus,
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.
O actor em estado geral de graça.


Herberto Hélder

sábado, 3 de janeiro de 2009



"Ricardo Reis faz um gesto com as mãos, tacteia o ar cinzento, depois, mal distinguindo as palavras que vai traçando no papel, escreve, Aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir, e tendo escrito não soube que mais dizer, há ocasiões assim, acreditamos na importância do que dissemos ou escrevemos até um certo ponto, apenas porque não foi possível calar os sons ou apagar os traços, mas entra-nos no corpo a tentação da mudez, a fascinação da imobilidade, estar como estão os deuses, calados e quietos, assistindo apenas."

domingo, 21 de setembro de 2008




judite
não fales
na terceira pessoa
judite
arde
na terceira pessoa

arrumada na história paralela
da moldura escondida
entre duas de família
“amo-te”, cala judite
que não parece bem que o diga
tão rápido e tão alto
“é o outono quente
nestas ruas de lisboa
que te procuro
nos rasgos velhos
de móveis abandonados”

arde judite
no silêncio
da terceira pessoa

sábado, 16 de agosto de 2008



um dia
comi a minha voz
que tinha comido
o meu sorriso
que tinha comido
o meu coração
que tinha comido
o mundo inteiro.


fiquei só
e muda.


livro
de páginas
trocadas
história
trôpega
de pega
errante

vamos brincar
às tragédias
fazer sentido
na desfolhada
meter buchas
e pôr a puta
a brincar
às comédias.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008




chocolate e cigarros
uma colher de chocolate em pó
um cigarro
uma colher
um cigarro
uma colher
um cigarro
“jantar” não rima
nem com chocolate
nem com cigarro
pois então
adeus Judite
que nunca serei
tão perfeita
como tu
não me sustenta
o ar que respiro
gostava de viver
na rua
do teu mundo
na perpendicular
à das pretas
onde o ar
te faz
tão bela.

terça-feira, 12 de agosto de 2008



erva daninha
erva danada
erva danosa
erva denada
erva dolosa
eva merdosa